Carlos Castello Branco, o repórter do Brasil

Zózimo Tavares

"O Piauí teve, sim, outros expoentes, mas foi Carlos Castello Branco, o menino da Rua da Glória, a nossa glória maior”

Durante mais de meio século, ele foi o repórter político do Brasil. Um repórter que soube interpretar o país, na agonia de duas ditaduras e na esperança de duas redemocratizações; no suicídio de um presidente da República (Getúlio Vargas), na renúncia de outro (Jânio Quadros), na deposição de mais um (João Goulart) pelas armas e no impeachment de outro (Fernando Collor) pelas armações. Foi também jornalista de três Constituições, a de 1946, a de 1967 e a de 1988. Exerceu a profissão ao longo dos mandatos de 13 presidentes da República e durante 31 anos redigiu a famosa Coluna do Castello, no Jornal do Brasil.
Eis um perfil breve e fugaz daquele que foi maior, o mais importante e o mais influente colunista político do Brasil na segunda metade do século 20, o jornalista Carlos Castello Branco, o Dr. Castello do trato mais formal ou o Castelinho, para os mais íntimos. Nascido em Teresina, em 25 de junho de 1920, ele estaria completando hoje 90 anos. Durante mais de 30 anos, escreveu a coluna política mais lida do país, que só deixou de ser publicada durante sua prisão pela ditadura militar, em entre 14 a 31 de dezembro de 1968, e com sua morte, em 1º de junho de 1993.
Filho do desembargador Cristino Castelo Branco e Dulcila Santanna Castello Branco, Carlos Castello Branco viveu a infância e adolescência em Teresina, desde seu nascimento até 1937. Estudou no Grupo escolar Teodoro Pacheco e no Liceu Piauiense. Com o jornalismo no sangue, fundou, aos 14 anos, em Teresina, o jornal A Mocidade, editado pelos alunos do Liceu, entre os quais se destacavam outro piauiense que ganharia renome nacional, Abdias Silva, e o maranhense Neiva Moreira, editor da revista Cadernos do Terceiro Mundo.
O jornal da juventude, com proposta literária, anteciparia o sucesso do ficcionista de Continhos Brasileiros (1952 ) e Arco de Triunfo (1959), romance de costumes políticos que mereceu a admiração de Manoel Bandeira.

A "Coluna do Castello"

Em 75 linhas de 72 toques, estampada diariamente na página 2 do JB e mais 30 jornais brasileiros, a "Coluna do Castello" era a consciência do país. O estilo elegante ele o extraiu dos textos de Machado de Assis, sua leitura diária. O jornalista não batia perna atrás de notícia. As informações chegavam até ele. Ouvia muito e falava pouco, para apresentar ao leitor o sumo da política.
"Quem sabe das coisas, percebe que há muita garimpagem naquelas linhas, escritas em meia hora. Quem não sabe, acaba constatando, alguns dias depois, que a coluna havia antecipado uma tendência ou uma decisão do governo. Foi assim em 68, pouco antes do AI-5. Foi assim em 61, antes do parlamentarismo, quando já previa o desastre de 64. E foi assim em janeiro de 1985, quando anteviu que Tancredo não completaria seu mandato", escreveu o jornalista Paulo Markun, ao traçar seu perfil para a revista Imprensa de setembro de 1987.
Nos últimos anos de sua vida, trocou os porres homéricos de Black Label por tormentosas sessões de radioterapia, para colocar sob controle um câncer na boca que acabou por vencê-lo.

"Teresina apagou-se na distância"


Carlos Castello Branco "saiu de casa bem cedo, para ganhar a vida longe dos seus", lembra a crônica do jurista e acadêmico Celso Barros Coelho, publicada por ocasião de uma de suas visitas ao Piauí. De Teresina, Carlos Castello Branco seguiu para Minas. Quando deixou a Cidade Verde, em 1937, com destino a Belo Horizonte, ainda não existia avião para lá. O único meio de transporte era o trem e o navio da Companhia Ita, que saía do porto de São Luís, no Maranhão. Para se chegar até lá atravessava-se o rio Parnaíba numa canoa para a cidade de Flores (hoje Timon), a fim de se tomar o trem para São Luís; esta viagem demorava dois dias. De São Luís para o Rio de Janeiro, levava-se de 12 a 13 dias a bordo do Ita. No Rio, pegava-se outro trem para Belo Horizonte.

Já no trem, do outro lado do rio Parnaíba, em direção a São Luís, o jovem estudante rememorava os versos saudosos do poeta Lucídio Freitas, que, como ele, foi também um andarilho, conforme contou em crônica memorável sobre sua viagem:


Teresina apagou-se na distância,
Ficou longe de mim, adormecida,
Guardando a alma de sol de minha infância
E o momento melhor de minha vida.
(Lucídio Freitas, Minha Terra, 1921)

A Teresina daquela época ele a pintou com as tintas da saudade no seu discurso de posse na Academia Piauiense de Letras, em 26 de setembro de 1984:
"A Teresina que nós deixamos - eu já me antecipara deslocando-me para Belo Horizonte, onde fui estudar Direito - era uma pequena cidade, com ruas sem calçamento ou com calçamento apenas iniciado, sem esgotos, com iluminação fraca, água, corrente das 7 às 11 da manhã, sem instalações internas que permitissem a construção de banheiros. Eram raros os chuveiros na cidade. Lembro-me do que havia, no fundo do quintal, na casa de "seu" Aarão Parentes e o de um pequeno hotel, que o incluía como novidade no anúncio que fazia publicar nos jornais da terra. Os limites da cidade para nós das boas famílias, como se dizia então, iam da rua da Estrela à rua São José, passando pelas ruas da Glória, do Amparo, dos Negros, do Fio, rua Grande, rua Bela e Paissandu - belos nomes que a Academia poderia fixar na memória urbana, fazendo-os inscrever em placas sem sem suprimir homenagem atual a piauienses ilustres. Bastaria inscrever aqueles nomes sob as placas atuais (antiga rua do Amparo, por exemplo) para que renascesse um sopro de poesia vindo das funduras do passado. Havia a Praça Rio Branco, freqüentada no começo da noite pelo governador e seus áulicos e onde se realizava duas vezes por semana o "footing" familiar. Dois cinemas e um Teatro que raramente tinha função divertiam a cidade, além dos circos e mafuás dos arrabaldes. Dos edifícios distinguia-se pela elegância a Igreja de São Benedito.
A cidade tinha seus personagens, desde o austero e cáustico Eurípedes Aguiar, mais tarde chamado o Euripão, até o Joel Oliveira, que puxava os "assaltos" de véspera de carnaval (...).

Em Minas, entre a redação e as tertúlias


Em Belo Horizonte, o adolescente que foi fazer o curso pré-jurídico da Faculdade de Direito, logo depois deu os primeiros passos no jornalismo e se matriculou entre as promessas literárias que abarrotavam os cafés da capital mineira. Sem família em BH, vivia do salário que recebia de O Estado de Minas. Através dos livros, protegeu-se da solidão social e do frio das montanhas naquela cidade que ia pelos 200 mil habitantes, ao entrar nos anos 40.
Em meio à boêmia, ao trabalho árduo já como jornalista e às tertúlias literárias com intelectuais de sua geração, entre eles Fernando Sabino e Otto Lara Rezende, levou o curso de Direito até o fim. Formou-se em 1943. Mas sua praia era o jornalismo. O Estado Novo começava a ser página virada da história com o fim da guerra.
Em 1945, mudou-se para o Rio de Janeiro, a convite de Carlos Lacerda, que assumiu a direção do Diário Carioca. Quando chegou à capital da República, descobriu que Lacerda não estava mais no jornal e ele estava desempregado. Mas passou pouco tempo nessa condição. Foi contratado por Neiva Moreira para O Jornal, do magnata Assis Chateaubriand.

O secretário de Imprensa de Jânio Quadros


O Rio que Castelinho conheceu e onde morou, nos anos 40 e 50, apresentava um mercado de trabalho em frenética modernização e profissionalização. Em 1950, recebeu sua terceira proposta de emprego, para trabalhar no diário carioca, com Pompeu de Souza, num projeto de modernização do jornal. Lá ficou durante 11 anos, só saindo para trabalhar em Brasília como secretário de Imprensa do presidente Jânio Quadros, em 1961.
Com a renúncia de Jânio, voltou ao batente. Passou a escrever a "Coluna do Castelo" na Tribuna da Imprensa, a partir de janeiro de 1962, e colaborava também com a revista O Cruzeiro, a mais importante do Brasil em todos os tempos. O Jornal do Brasil comprou a Tribuna, mas conservou o co-lunista. Por dez anos, ele foi diretor da sucursal do JB em Brasília, deixando o cargo em 1972, depois de um infarto.
Quando deixou o governo, Castello deu este depoimento:
- A experiência valeu para continuar a ser repórter político. Todo mundo que trabalha no Palácio se acha importante, mas na verdade, importante mesmo são uma ou duas pessoas, não mais.

Uma voz contra o arbítrio


Carlos Castello Branco escreveu, durante grande parte de sua vida, com o país submetido à censura e ao arbítrio da ditadura militar. Democrata convicto, com trânsito entre políticos de todos os partidos, Castelinho era um dos raros jornalistas que o regime militar não rotulava como esquerdista. Mesmo assim foi preso em dezembro de 1968, logo após a decretação do AI-5. Voltou no dia 1º de janeiro de 1969, permanecendo nas páginas do JB durante os períodos mais duros do regime militar em virtude de sua habilidade e também das contradições do sistema. Dentro do próprio governo, grupos liberais sempre trabalharam para que a Coluna do Castello não sucumbisse à censura.
O senador José Sarney proclamou, ao saudá-lo, em 1982, na sessão de sua posse na Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira 34, depois de vencer o poeta Mário Quintana por 21 votos a 17:
- Ele foi o Congresso quando o Congresso não era.

As homenagens da terra-berço


Em setembro de 1990, Carlos Castello Branco veio à terra natal receber homenagens pelos seus 50 anos de jornalismo. Escrevi, no dia 14, na coluna que assinava no jornal O Dia, um texto sobre sua presença na terra-berço:
"O Piauí celebra, hoje, com indisfarçável orgulho, os 70 anos de vida e os 50 anos de jornalismo de Carlos Castello Branco, que dispensa apresentações, pela sua atividade profissional intensa, duradoura e inteligente que lhe projetou como uma legenda viva do jornalismo brasileiro já desde o início de sua bem-sucedida carreira.
Com seu estilo sóbrio, conduta profissional retilínea e texto polido, Carlos Castello Branco fez escola como analista político no Brasil. Sua Coluna do Castelo, publicada há 28 anos no Jornal do Brasil e reproduzida simultaneamente nos Estados por jornais de circulação regional, é leitura obrigatória em todo o país para quem quer começar o dia cara a cara com a exposição fiel dos fatos e o exame imparcial das versões políticas.
De formação intelectual predominantemente mineira, Carlos Castello Branco não renega, contudo, a sua origem piauiense. Pelo contrário, faz até questão de exaltá-la. Membro da Academia Brasileira de Letras, onde ingressou já como uma celebridade nacional, não sossegou enquanto não entrou, também, na Academia Piauiense de Letras.
Há reciprocidade na afeição que ele devota ao seu sofrido, mas altivo Piauí, que sabe reconhecer e aplaudir - como está fazendo hoje - quem, por méritos próprios, se impôs na crônica política nacional como um de seus expoentes máximos e o mais acatado de todos eles.
O Piauí, no seu modo simples como o jeito discreto de seu filho ilustre, rende homenagens ao repórter que brindou seus leitores também com literatura de primeira grandeza, através do romance "Arco de Triunfo" e "Continhos Brasileiros".

Acervo do jornalista está no Piauí


Todo o acervo do jornalista Carlos Castello Branco, composto por sua biblioteca, premiações, honrarias, fardão da Academia Brasileira de Letras e muitos outros objetos pessoais, está no Piauí. Doado pela família, o acervo ocupa o mais amplo salão da Casa da Cultura de Teresina. Ele foi adquirido e instalado por iniciativa do prefeito Wall Ferraz.
Várias universidades brasileiras e outras instituições culturais estavam interessadas no acervo de Castelinho. Ele veio para sua cidade natal por decisão da viúva, ministra Élvia Castello Branco. À época, eu era secretário de Comunicação da Prefeitura de Teresina e acompanhei de perto os entendimentos.
As negociações foram intermediadas pelo jornalista piauiense João Emílio Falcão, amigo da família de Castelinho, do prefeito e meu. Na inauguração do acervo, em 1994, distribuímos um belíssimo folder, com projeto gráfico de Albert Piauí, com um perfil biográfico do homenageado escrito por Falcão, no qual destacava, sobre Carlos Castello Branco:
"Bastariam os anos em que foi corneteiro da libertedade para consagrá-lo, mas, se teve a audácia da resistência, foi, na paz, o pregador do civismo e a consciência crítica da nação, que falava por seu intermédio. Não houve uma grande questão, nos quase 50 anos de seu jornalismo, que não tenha analisado. Não panfletariamente, nem a justificar ideologias, que a sua era, unicamente, a da Pátria, mas com lucidez, serenidade e, devemos repetir uma vez mais, com espírito público".
Antes da instalação do acervo, o prefeito Wall Ferraz inaugurou, no bairro São Cristóvão, o Espaço-Cívico Cultural Jornalista Carlos Castello Branco. A Universidade Federal do Piauí inaugurou em 1995, na gestão do reitor Charles Sil-veira, a Biblioteca Comunitária Carlos Castello Branco.
Diante das homenagens, o jornalista Abdias Silva escreveu:
"Com a inauguração da Biblioteca Carlos Castello Branco, na Universidade Federal do Piauí, e a instalação de sua biblioteca, doada à Prefeitura de Teresina, Carlos Castelo Branco volta, agora de forma definitiva e eterna, à terra onde ele nasceu e tanto amou, não vaidosa e arrebatadamente como uma cachoeira, mas ao seu estilo discreto e serenamente como um lago cristalino, manso e sobre o qual seu espírito navegava com gosto.
Hoje seu corpo está no Rio, mas seguramente sua alma está na Biblioteca que tem o seu nome. Assim como uma borboleta invisível, revoando sobre o jardim onde sempre viveu".

Como escreveu outro jornalista piauiense de saudosa memória, João Emílio Falcão, "o Piauí teve, sim, outros expoentes, mas foi Carlos Castello Branco, o menino da Rua da Glória, a nossa glória maior".
Em 2008, a filha de Castelinho, Luciana Castello Branco, criou o site www.carlos castellobranco.com.br, com as mais de 8 mil colunas escritas pelo jornalista.

Publicado no Diário do Povo, em 25.06.2010