As últimas escaramuças
Brasília — Enquanto submetia à apreciação de alguns amigos cópia do documento que pretende divulgar proximamente, de análise da conjuntura nacional assinalada pela disputa do Governo por dois candidatos militares, o Senador Magalhães Pinto, convidado, foi à casa do General Hugo Abreu e, procurado, jantou em sua residência com o Brigadeiro Délio Jardim de Matos. O General Abreu continua a considerar de grande importância para o êxito político da campanha do General Euler Bentes o apoio do Senador enquanto o Brigadeiro Matos parece mais interessado em estimulá-lo a candidatar-se a deputado pela Arena, mesmo sem compromisso de apoio a candidatura Figueiredo. A presença do nome do Senador na chapa da Arena melhoraria as perspectivas eleitorais do Partido contribuindo para diminuir o impacto dos resultados eleitorais de novembro, mesmo que o propósito do Senador seja o de deixar a Arena em seguida para reunir forças afins em torno de um novo Partido.
O Senador não deu respostas conclusivas, mas sabe-se que sua tendência, além de manter-se em atitude crítica quanto ao desenvolvimento da sucessão presidencial, será a de assegurar um lugar na representação federal de Minas para uma posterior decisão relacionada ao seu destino político. As promessas do General Figueiredo de avançar no caminho das reformas, de modo a completar a implantação de um regime democrático no país, impressionam bem o Senador, receoso, todavia de que os conflitos militares inerentes ao processo em curso promovam o retrocesso institucional, seja qual for o vitorioso.
Em matéria de cálculos sobre apoios militares de que dispõem os candidatos, amigos do General Euler Bentes admitem que ele tem apoio decidido de 20% dos oficiais superiores e acreditam que o apoio ao General Figueiredo não exceda a essa percentagem. Calcula-se assim que 60% das Forças Armadas acompanham o processo em atitude de expectativa, embora mais inclinados, por motivos óbvios, a apoiar o candidato do Governo e a respaldar a autoridade do atual Presidente da República. Nessa maioria estariam incluídos os grupos radicais hostis a reformas e receosos de que a liberalização prometida pelos dois candidatos redunde numa perda de controle político com recrudescimento de ameaças subversivas.
Do ponto-de-vista militar, a visita do General Euler Bentes ao ex-Presidente Médici, antecedida pela declaração escrita de apoio do professor Roberto Médici ao candidato do MDB, tem expressão independentemente de não ter o antecessor do General Geisel desvendado sua posição pessoal em relação à sucessão presidencial. Recebendo o candidato da Oposição, o ex-Presidente eliminou pelo menos a hipótese de que considera subversiva ou perigosa para as Forças Armadas a candidatura alternativa, principalmente quando seu filho proclamou a identidade do conceito de democracia que tem com o do General Bentes. O General Figueiredo visita rotineiramente o General Médici, como seu antigo auxiliar, mas jamais obteve dele uma palavra de adesão, pleiteada não pessoalmente por ele, mas por seus correligionários do primeiro escalão.Entre o candidato Figueiredo e o General Médici existe um obstáculo — a influência do General Golbery do Couto e Silva no sistema político que deflagrou o movimento em favor do ex-Chefe do SNI. Como se sabe, parece irremovível a incompatibilidade do ex-Presidente com o Chefe do Gabinete Civil do General Geisel.
Recebendo o General Euler, o General Médici consagrou a divisão militar, reconhecendo a perda de unidade política do sistema e considerando legítima a disputa entre as duas facções. O Presidente Geisel deve ter colhido a lição e terá em conseqüência acelerado as providências para assegurar a continuidade da transição de Governo e de regime nos termos em que a equacionou.Seu problema é reformar na medida em que pensa promover o aperfeiçoamento sem perda de segurança e manter o domínio da situação militar até o dia de entregar a Presidência ao General Figueiredo. Daí por diante o problema será do seu sucessor, que não só promete desenrolar o fio da meada democrática como se acredita em condições de enfrentar as dificuldades militares que sabe o aguardarão a partir do momento em que chegar, se for o caso, à Chefia do Governo.Para reforçar-se com vistas ao futuro está o candidato oficial empenhado, mediante sua campanha, em melhorar a votação da Arena em todo o país a fim de evitar a sensação de catástrofe que poderia se seguir ao15 de novembro.
No MDB há quem se preocupe com a transferência do espaço que os jornais normalmente destinam à cobertura das atividades do Partido para a cobertura das atividades do General Euler e da sua campanha.O Partido fica à retaguarda do candidato e de certo modo mais na dependência do êxito da sua campanha do que do vigor da própria campanha partidária.
O Livro de Mourão
O livro do General Mourão Filho, cuja publicação está pendente de julgamento judicial, tem seus originais revistos pelo próprio autor e, da leitura feita pela família, resultaram cortes que também constam do original, que está em Brasília para autenticação. O jornalista e historiador Hélio Silva insiste em que sua luta agora é pela liberdade de imprensa e contra a tentativa de amordaçamento de um morto cujas revelações não constituem ameaça para quem quer que seja ou para qualquer regime.
Carlos Castello Branco |