O Partido dos Trabalhadores
Brasília — Segundo depoimentos de pessoas que estiveram no curso da semana passada em São Paulo, o empresariado paulista vai-se habituando à normalidade das negociações diretas com os trabalhadores, recusando-se a atribuir às reivindicações caráter político ou intenção de perturbar o ambiente de ordem vigente no país. Preocupados com a gestão econômico-financeira, entenderiam os grandes empresários de São Paulo que são normais os pleitos dos trabalhadores e que devem ser atendidos no contexto das possibilidades atuais das empresas.Tal atitude tem contribuído para evitar que as questões levantadas aumentem as tensões locais a ponto de servirem de pasto a interferências políticas não procuradas por qualquer das partes negociadoras.
Deve-se tomar essa reação do empresariado como sintoma positivo, no sentido de que cresce a tendência favorável à normalização da vida social e política do país, afastando-se tutelas e devolvendo-se à comunidade o controle do seu destino. Essa lição deve ser entendida pelos bolsões revolucionários que, a pretexto de evitar revanchismos, se mobilizam para enfrentar o que é hoje um estado de espírito do Governo, dos candidatos à sucessão presidencial e da opinião pública de um modo geral. A nação quer democracia e quer o império da lei como indispensáveis à normalização das relações sociais e como estímulo ao espontâneo jogo das forças internas.
Do ponto-de-vista político, as novas lideranças sindicais vêm exemplarmente rejeitando apadrinhamentos e interferências de interessados no pleito eleitoral. O General Euler Bentes agiu com prudência quando identificou os objetivos da classe operária e estimulou seus líderes a não permitira interferência de interesses de forças estranhas de qualquer tipo na apresentação das suas reivindicações. O conselho do General coincidiu com a firme orientação de lideranças que temem o patrocínio de suas causas por agentes do Governo ou por agentes demagógicos empenhados em utilizá-los como instrumento de uma política. Essa atitude dos líderes sindicais revela a distancia entre 1978 e 1964. E mostra as dificuldades que encontraria, hoje, o Sr Leonel Brizola de rearticular o PTB na base dos homens que o compunham antes do Movimento de 31 de março. Eram eles agentes de uma política operária dirigida pelo Governo federal ou comandada por métodos demagógicos, sem falar na incidência, nessa faixa, de uma aliança de demagogos e comunistas, que tanto se beneficiaram da confusão gerada ao longo do Governo de João Goulart.
Quando um líder em ascensão como Lula, o metalúrgico, alude à intenção de formarem os trabalhadores o seu próprio partido político, ele está excluindo, por via de conseqüência, a restauração do Partido Trabalhista de inspiração paternalista e apoiado por alianças políticas de intenções identificadas. O Partido dos trabalhadores a ser criado refletiria a nova realidade operária e sindical do país. Não estamos certos de que a criação de um Partido de classe seja o melhor caminho para solucionar problemas de uma sociedade tão mutável em sua estrutura e tão flexível como a nossa. A experiência do Partido Trabalhista da Inglaterra, criação de intelectuais, demonstrou que a representação política ali passou a depender dos sindicatos de tal maneira que são as trade union que, na realidade, elegem a maioria da bancada trabalhista e dominam a estrutura do Partido em caráter exclusivista. O Labor Party é hoje uma extensão dos sindicatos, os quais inclusive arcam com as despesas eleitorais. A mobilidade social de uma nação como a nossa poderia aconselhar a adoção de modelos alternativos mediante os quais se assegurasse a representação do trabalhador nos órgãos de decisão política sem caráter sectário.
A situação da representação popular do Brasil de hoje, como, aliás, dos tempos do regime de 1946, é insustentável. Poucos trabalhadores tiveram acesso ao Congresso e às Assembléias e os interesses trabalhistas eram supostamente defendidos por profissionais liberais e por patrões que se assenhoreavam do comando da organização política trabalhista. Esse erro não poderá repetir-se e a oportunidade de mudanças será, no próximo ano, a possibilidade de formação de novos Partidos. O MDB é um movimento que reúne forças díspares, mas é curioso observar que nele, como na Arena, não figuram operários na sua representação. Pouco importa a tendência ideológica de alguns deputados e senadores. No fundo, o MDB e a Arena são Partidos estritamente burgueses. A criação de um Partido classista dos trabalhadores talvez não seja a solução.
Os interesses sociais podem e devem ser representados e defendidos por instituições não exclusivistas que definam programas autênticos. E' claro que se há banqueiros, proprietários rurais e empresários de todos os tipos no Congresso, lá deverão estar também os trabalhadores, o que não deve ser interpretado como a afirmação de que somente o trabalhador pode definir seus próprios interesses. Do ponto-de-vista nacional, impõe-se a convivência das classes e dos grupos sociais e econômicos para assegurar os meios políticos indispensáveis à plena realização da ordem social, que não deve depender jamais da polícia, mas tão-somente da política.
O MDB como a Arena irão esfacelar-se depois da eleição de novembro. Essa será a hora de agirem os líderes sindicais em favor da criação, com o apoio de intelectuais e de: políticos experientes, de um Partido que os represente com nitidez em questões sociais e políticas, de modo a fechar a porta aos aventureiros que fizeram e ainda fazem sua vida na base do voto inocente dos trabalhadores.
Carlos Castello Branco |