Coluna do Castello    
 

A eleição que não comporta golpes

Brasília — Decidida pelos números do Colégio Eleitoral, a sucessão presidencial não oferece aparentemente oportunidade ao candidato da Oposição, General Euler Bentes Monteiro. O trabalho de convencimento, que vem sendo realizado por correligionários militares junto a membros do Colégio Eleitoral, não parece destinado a maior êxito, a não ser que ocorra o que o General quer evitar e pede aos jornais que o ajudem a evitar, denunciando os responsáveis: a radicalização.Radicalização na campanha sucessória não significa propriamente afirmação ideológica de contestação à ideologia dominante nesse regime de direita ao qual serviram alguns dos principais promotores da candidatura oposicionista, circunstância que não invalida a candidatura nem suas proposições. Afinal, o Movimento de 31 de março definiu um ideário democrático, em nome do qual se preservou um Partido de oposição e se tem dado oportunidade a uma permanente revisão de valores dominantes no sistema. O campeão do revisionismo, antes da atual campanha, era o Presidente Geisel, sem embargo de ter sido o editor do pacote de abril.

Radicalização numa sucessão entre militares seria obviamente o apelo às armas para respaldar a vitória de um deles. Oficialmente, as armas aí estão para assegurar a decisão do Presidente da República de fazer seu sucessor o General João Baptista de Figueiredo, o qual de resto promete transformar o Brasil numa democracia. Se há dissidências militares haverá de supor-se que elas não se sentirão seguras limitando sua área operativa a manifestações de convencimento cívico. O General Euler Bentes, no entanto, recusa a produção de fatos militares capazes de influir no animo dos participantes do Colégio Eleitoral. Aparentemente ele confia no poder de persuasão da sua campanha e do trabalho dos seus companheiros paisanos e fardados. Como observadores antigos da cena política, não temos razões para compartilhar da crença do General Bentes nem, portanto para crer que, sem a produção de fatos concretos, a reunião política de 15 de outubro tenha seus resultados modificados por inspirações cívicas. A política é uma arte objetiva que produz fatos concretos relacionados com a realidade ambiente.

Essas observações não significam que desconfiemos da sinceridade do General Bentes ou do General Hugo Abreu, quando afirmam que o papel dos militares é o exercício da sua honrosa profissão. Eles devem pensar tal como falam e por isso mesmo não vemos onde está a fonte do seu otimismo com relação ao resultado da eleição preparada pelo regime para sustentar a continuidade do mesmo regime segundo o novo traçado do General Geisel. O General candidato da Oposição certamente espera modificar algumas opiniões no Colégio de eleitores, mas, se ele espera que isso se produza apenas como resultado da sua pregação, ou ele não conhece política ou é um sonhador. Não insinuamos ao candidato da Oposição atividades extralegais, mesmo porque ele insiste em dizer-se fiel cumpridor das leis e rigorosamente contrário a radicalizações, as quais atribuí a adversários que a imprensa deve identificar.Essa tarefa seria mais bem exercida pelo candidato, que vê suas intenções torcidas, ou pelos serviços de informação do Governo. A imprensa apenas reconhece o que ouve e publica nos limites da sua conveniência ou dos riscos a enfrentar.

O General Euler Bentes, de resto, não necessita, no curso da sua campanha, apresentar-se como uma solução golpista. Sua candidatura, embora com a provável derrota a 15 de outubro, projeta-se para o futuro.Como ele empalmou a liderança do MDB e ocupa o espaço publicitário desse Partido, o natural é que planeje sua campanha por um prazo mais longo, pelo menos até a eleição de 15 de novembro, quando o povo, afastado da sucessão presidencial, poderá votar na Oposição, já então com um novo porta-estandarte, o seu candidato a Presidente da República. A vitória do MDB, se ocorrer em novembro, será a vitória do General Bentes, numa revanche popular contra a eleição manipulada de 15 de outubro. Esse o sentido não golpista e profundamente democrático que poderá adquirir o movimento em favor do General Euler. Sua destinação é perderem outubro e ganhar em novembro, devolvendo ao MDB, vitoriosa, a sua bandeira.

Não é outra de resto a expectativa da direção partidária, que resistiu à candidatura militar e temeu, ostensivamente, envolver-se num pleito no qual fatalmente será o Partido derrotado, a menos que se produzam fatos que os Generais da Oposição não querem produzir. Na realidade a situação que se seguiria a uma vitória popular da Oposição um mês depois da derrota que lhe imporá o sistema seria singularíssima e cheia de conseqüências. Não se pode prever a nação governada por dirigentes escolhidos por representantes acondicionados pelo pacote de abril e representada no Congresso e nas Assembléias pela Oposição. O voto do povo haverá sempre de ser mais importante, seja qual for o poder de radicalização de que disponham os detentores dos poderes discricionários em vias de extinção.

O papel mais importante do General Euler e dos seus amigos militares não será desempenhado provavelmente em outubro, mas entre novembro e março. Nessa faixa é que se situam suas responsabilidades e para esse período é que valem seus propósitos de não radicalização.

Carlos Castello Branco

 
Jornal do Brasil 04/09/1978