Coluna do Castello    
 

Faoro manda pôr barbas de molho

Brasília — Com grande senso de oportunidade, o professor Raymundo Faoro advertiu a repórteres em Sergipe para que ponham suas barbas de molho. Respondendo a pergunta —"para onde vai o Brasil?"— o presidente da Ordem dos Advogados respondeu que "nós desejamos" que caminhe para a democracia na sua plenitude. E mais seguro: "O processo revela que o Brasil real-mente caminha para a democracia (...), eu sinto que o povo brasileiro quer isto e ninguém detém a vontade do povo". Sem embargo, o ilustre advogado e escritor revelou não ser muito otimista. "Sou até cético". Há, nessas contradições, manifestação de vontade e conhecimento da História, a primeira levando-o ao caminho da fé, a segunda ao da prudência e da advertência.

O professor disse outras coisas inteligentes, como sempre, com relação ao nosso regime, à natureza da Constituição que nos rege e à deficiência dos regimes democráticos que temos tido eventualmente. O que importa, todavia, nesta hora, é a advertência que fez, tanto mais quanto os jornais que a publicaram a puseram lado a lado com o discurso no qual o General João Baptista de Figueiredo declara enfaticamente que voltará a servir a regimes de exceção, se necessário for. Pela primeira vez ele não promete pura e simplesmente, como no primeiro cartaz da sua propaganda, fazer deste país uma democracia. O General ofereceu concreta restrição ao conceito democrático, ao pedir "uma democracia de acordo com nossos costumes, repelindo violentamente, com a mesma violência de 31 de março, quaisquer desvios por ideologias extremas". Volta o candidato à noção da democracia relativa, da qual parecia que íamos nos libertando, na medida em que, sob a pressão da vontade popular, a nação dava sinais de marchar para uma democracia de verdade.

O General Figueiredo já localizou na Oposição a fonte eventual de procedimentos futuros. Dirigindo-se aos opositores, pediu lhes que "pensem um pouco na felicidade da pátria", o que significa afirmar que é o candidato do Governo quem está em condições de definir a felicidade da pátria. A Oposição deve conformar-se ao conceito expedido a respeito pelo Governo e pelo sistema, pois não haverá pejo em repetir o procedimento de 31 de março. Advertidos estão, pois, o General Euler e seus correligionários de que devem buscar a definição exata da felicidade da pátria para que poupem ao país a ocorrência de novos surtos de violência.

Os pronunciamentos do candidato oficial vinham mantendo um tom estimulante, malgrado suas escaramuças com a imprensa, originárias mais de um temperamento ardoroso e incontido do que de uma avaliação das situações. Num contato relativamente prolongado com o candidato, convenci-me de que ele, chegando ao Governo, iria acelerar imediatamente as reformas agora propostas pelo Presidente Geisel, a ponto de promover as eleições diretas para governador e a totalidade do Senado e de limpar a Constituição da salvaguarda das emergências mediante as quais se procura negociar neste momento a concordância dos militares com a eliminação dos atos de exceção. Ele pareceu-me comprometido com o aperfeiçoamento institucional e por isso mesmo me surpreende que, em discurso perante um auditório predominantemente militar, ele se lembrasse de dar um "basta" à Oposição e de atribuir-lhe preventivamente a responsabilidade por um possível retorno à violência revolucionária.

O professor Faoro, que se situa acima das contingências políticas ou jornalísticas e que não se deixa envolver em interesses estranhos à sua profissão e à sua missão, talvez não tivesse imaginado, em Sergipe, estar falando com extrema oportunidade, dosando a esperança com o ceticismo que lhe infunde o conhecimento teórico e prático das realidades brasileiras. Com relação ao General Figueiredo ficamos a imaginar que ele está pressentindo a irrupção de táticas oposicionistas capazes de pôr em risco a continuidade do sistema no Poder. Ele não é só um Oficial de Cavalaria, mas um Oficial de In-formações, especialidade em que se aperfeiçoou precisamente ao longo da autocracia a que serviu e a que poderá voltar a servir.

O General Euler Bentes Monteiro, que fez parte do sistema, como membro do Alto Comando, deveria atualizar-se em matéria do conceito de felicidade da pátria para pautar sua campanha pela linha certa e evitar radicalizações que tanto o preocupam. A campanha deve ser moderada, seguindo as regras do jogo, nas quais se inclui hoje o parecer Afonso Arinos, e o candidato oficial não deve correr riscos. Afinal estamos procurando apenas "uma democracia de acordo com nossos costumes", o que poderá dar como resultado termos a emenda pior do que o soneto.

Carlos Castello Branco

 
Jornal do Brasil 05/09/1978