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Sintomas de endurecimento
Brasília — Enquanto o General Euler Bentes Monteiro continua a confiar na força da "dinâmica social" como fator bastante para gerar condições de elevá-lo à Presidência da República, ou, alternativamente, a uma liderança nacional a operar depois de 15 de outubro, crescem os sinais de endurecimento da política oficial. O endurecimento representa, obviamente, um dique à expansão da "dinâmica social" e um reenquadramento de posições desbordantes acaso diferenciadoras da linha ortodoxa traçada pelo Palácio do Planalto, na estrita interpretação de uma distensão dentro dos limites do consentimento dos comandos militares.
O primeiro sintoma desse endurecimento foi-nos dado inesperadamente pelo General João Baptista de Figueiredo, que disputava aos demais candidatos uma espécie de campeonato de fidelidade ao regime democrático e de determinação de implantá-lo.Quando cavou no chão de uma granja de Jacarepaguá a trincheira onde plantaria o jacarandá Gorila, o candidato da Arena fez uma retificação de rumo e condicionou-se às pressões ambientes. Ele fará a democracia, conforme reiterou aos correspondentes estrangeiros e conforme o lema da sua campanha, contanto que a Oposição pense mais na "felicidade da pátria". O General Euler, sob a ameaça de ser acusado de infiel, declarou-se sob pressão, não se sabe se para impulsionar os fatores dinâmicos da sociedade ou separa fixar as razões que eventualmente possam estagnar o impulso de apoio à sua candidatura.
A liberalização do regime está definida nos termos da proposta para a qual o Senador Petrônio Portella obteve o consentimento do Presidente Ernesto Geisel. Essa é a reforma que o Governo considera possível e viável e o máximo que as Forças Armadas, a esta altura, podem assimilar num processo de "aperfeiçoamento institucional". O General Figueiredo programou aprofundar, a seu tempo ou num segundo tempo, o projeto Geisel, mas já agora, pela fala de Jacarepaguá, se sabe que ele está condicionado à avaliação do comportamento da Oposição, pois, se for o caso, não hesitará em agir com a mesma violência de 31 de março de 1964.Em substancia as coisas não mudaram e o liberalismo do candidato — anote o Senador José Sarney — está tão pendente do consentimento do sistema quanto a distensão do Presidente. O Senador Petrônio Portella, que fez o possível, corre o risco de ser acusado pela Oposição de não ter proposto o bastante e de ser apresentado pelos militares como alguém que balançou o coreto da segurança propondo liberalidades excessivas.
Quanto ao Senador Magalhães Pinto, excluído do processo de sucessão inicialmente pela Arena, em seguida pelo MDB, insiste em manter-se como alternativa civil.Embora não invoque o "dinamismo social" dos partidários do General Euler Bentes, ele deve estar pensando em algo semelhante à ação das forças imanentes da História, o que vem a dar no mesmo. Mas a radicalização o vai colhendo aos poucos e hoje já não será tão fácil para ele declarar-se candidato a deputado pela Arena de Minas quanto o era, há uma semana. O Sr Raphael de Almeida Magalhães, por exemplo, não mais obteria a esta altura registro pela legenda oficial. Nem o Senador mineiro não a obterá, a não ser mediante negociações realizadas no âmbito federal. Sua cordial conversa com o General Figueiredo não alterou os dados do problema nem o Governo espera do Senador adesão ao candidato. Está preparado inclusive para facilitar-lhe o ingresso na chapa de deputados do Partido por Minas Gerais, respeitando sua atitude de defesa de reformas liberais mais amplas e abrindo mão de compromissos específicos com o candidato partidário. Haverá de haver, todavia, uma forma de integração com a Arena, de modo a afastar a idéia de que ele possa retornar ao seio do Partido afirmando-se fiel à Oposição nacional.
Essa colocação, de óbvio endurecimento, parte do pressuposto de que a candidatura do Sr Magalhães Pinto hoje não seria cômoda aos candidatos que assumiram suas posições eleitorais em Minas e o esforço para devolver-lhe a situação anterior teria de ser compensado por uma atitude de transigência, a que não faltaria a necessária cobertura moral da direção nacional partidária.Enfim, as coisas não estão bem nítidas. Sabe-se apenas que o Partido oficial decidiu condicionar a cessão da legenda ao Sr Magalhães, a qual deixou de ser tema do Diretório Estadual para ser objeto de decisão federal.
Dentro dessa nova realidade é que terá de decidir-se e pronunciar-se o Sr Magalhães Pinto, o qual, como se sabe, prepara um documento de definição política a ser oferecido à nação, no qual, em princípio, rejeita ambas as candidaturas militares e se afirma fiel aos compromissos da Oposição nacional. Com relação a esse segundo item é que deve operar a Arena, no seu esforço de enquadrar o Senador mineiro, cuja presença na vida pública considera essencial desde, porém, que num esquema de comportamento arenista.
Carlos Castello Branco |
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