Coluna do Castello    
 

O Sistema em ponto de fusão

Brasília — Num balanço da situação, segundo o projeto de reformas políticas, os pronunciamentos de militares e o último discurso do General-candidato, pode-se avançara interpretação de que o projeto encampado pelo Presidente Geisel representa as concessões possíveis do Sistema, neste momento e ainda por algum tempo. O Senador José Sarney, que chegou a ouvir opiniões que o deixaram em estado de dúvida, sabe hoje que não poderá acolher emendas a não ser as estritamente consentidas pelo Chefe do Governo, sem embargo de ter anotado declaração de intenções com vistas ao futuro.

O General João Baptista de Figueiredo, que disputava com os adversários o posto mais avançado em matéria de reformas políticas, possivelmente não mudou de pensamento, mas teve de ajustá-lo à realidade manifestada pelos pronunciamentos militares que encheram a Semana do Soldado e poderão ter eco nas comemorações, hoje, do Dia da Pátria. As Forças Armadas continuam a dar prioridade à questão da segurança e por isso mesmo subordinam as salvaguardas seu apoio à reconstitucionalização do país. Se as salvaguardas não funcionarem, segundo as previsões oficiais — e dificilmente deixarão de funcionar se forem invocadas — estão os chefes militares com a prévia garantia de que o Sistema será preservado ainda que o sucessor que referendaram seja obrigado a recorrer à mesma violência de 31 de março de 1964.

Houve assim um reajustamento interno das camadas revolucionárias, com uma espécie de fusão de posições de modo a assegurar a unidade e a dar trânsito à candidatura Figueiredo e à transição gradual, lenta e segura do regime. O General-candidato deve ser daqui por diante mais prudente nas promessas de, num segundo tempo, aprofundaras reformas e deve excluir de seus acenos a hipótese, pelo menos até que esteja com o domínio total da situação, de supressão de salvaguardas e outros itens mais contundentes que assinalarão na futura carta a sobrevivência do espírito militarista dos atos institucionais.

Do ponto-de-vista civil perdeu em credibilidade a campanha do General Figueiredo.Em compensação, militarmente, ela terá se consolidado na medida em que passou a identificar-se com as ostensivas posições dos comandos militares. Um oficial superior atualmente na reserva, dos mais liberais que conhecemos, dizia a propósito do discurso à beira da cova do Gorila que qualquer um militar agiria ou agirá, segundo as circunstâncias, com a mesma violência com que operaram em 1964, 1965 e 1968, pois os métodos radicais fazem parte da natureza da formação castrense, sem embargo de convicções ou idéias de ordem geral quanto à organização da sociedade. "Nas emergências", disse, "todos nós agimos da mesma maneira, ainda que, distante dos acontecimentos, possamos pensar que agiremos de maneira diferente".

O General Euler Bentes Monteiro e seus amigos do MDB, contentes com a primeira pesquisa de opinião que dá preferência popular de l % ao candidato da Oposição, continuam a supor que a crescente tendência popular em favor do General oposicionista terminará por influir no Colégio Eleitoral levando-o a sufragar o nome do Sr Euler Bentes. O candidato, no entanto, percebeu o movimento subterrâneo nas Forças Armadas e no Sistema, a que pertenceu longamente, do qual resultou o discurso do General Figueiredo, e a ele reagiu como se se tratasse de uma ameaça. A ameaça está no recondicionamento dos comandos e do candidato em torno dos princípios da distensão lenta e gradual do General Geisel, canceladas hipóteses de liberalizações não previstas por esse especialista em segurança que é o atual Chefe do Governo. A popularidade do General Euler tende a influir menos do que seria previsível na orientação do seu eleitorado.

Restará à Oposição a expectativa de beneficiar-se desses índices crescentes de aceitação popular na eleição de uma bancada majoritária na Câmara federal a 15 de novembro. A essa expectativa ela deve somar um pacto de unidade que preserve o MDB da dispersão pós-eleitoral incluída na estratégia do Governo como eventual corretivo para resultados incômodos na eleição parlamentar. Não há sintomas de que a divisão do Partido oposicionista seja facilmente absorvida. Basta ler o programa de campanha para verificar que o General Euler não se tornou ainda o núcleo incontestável de aglutinação de forças que se dividiram, antes de referendada sua candidatura, em torno de tendências tradicionais, mas agravadas naquelas circunstâncias.

Ministeriáveis
Pela primeira vez, e por ter ouvido a especulação de boca normalmente autorizada, registramos nomes de pessoas dadas como ministeriáveis no Governo do General Figueiredo. Esses ministeriáveis seriam o General Golbery do Couto e Silva, o Ministro Leitão de Abreu, o Sr Mário Andreazza, os Embaixadores Roberto Campos, Espedito Resende e Guerreiro, o General Medeiros, o Senador Jarbas Passarinho e, apesar da sua arraigada posição na Emocional de Itaipu, o Sr Costa Cavalcanti. Alguns desses nomes excluem outros, o que não impediria que todos estivessem sob exame.

Note-se que há na lista conjunção de antigos auxiliares de todos os Governos revolucionários a que se associam nomes novos.

Carlos Castello Branco

 
Jornal do Brasil 07/09/1978