Coluna do Castello    
 

A campanha do General Euler

Brasília — O General Euler Bentes Monteiro está em Brasília em atividade eleitoral, depois de inaugurada oficialmente a sede do seu comitê, dirigido pelo jornalista Pompeu de Souza. Ele tem recebido políticos, jornalistas que comandam as sucursais e as redações da cidade, repórteres, representantes de associações e de grupos de ação em favor de causas sociais e participou de debates com associação de especialistas em economia. O General é homem de falar escorreito e de expressão clara, malgrado as ambigüidades que se lhe atribuem. Seu protesto, em seguida ao do Senador Paulo Brossard, contra a difusão de documentos anônimos em que lhe são feitas acusações, é a indignada e justa resposta a métodos de ação perfeitamente condenados e injustificáveis. Se ele tem contra sua candidatura a maioria das classes e dos grupos aos quais se dirigem os panfletos, que apareçam em campo raso os que o combatem à sombra do prestígio das maiorias que se pretendem esmagadoras. A carta anônima pode ser, como quer Nelson Rodrigues, a única carta verdadeira, o que não a impede de ser o mais ignóbil dos recursos de luta.Mais grave do que a carta anônima só a divulgação, que se atribui ao CIE, de comentário hostil ao General Euler.

A campanha do General Euler tem sido noticiada amplamente, embora não seja raro o candidato ou algum de seus assessores lamentar distorções no noticiário. Isso pode ocorrer, mas não tem sido a norma, pelo menos desde que a candidatura evoluiu da obscuridade dos bastidores para o campo aberto da disputa. Opiniões contrárias ele as colherá com abundância, pois é notório que os principais jornais do país se manifestam apreensivos, certa ou erradamente, com a hipótese da sua ascensão ao Governo. É o direito de opinião e o exercício da liberdade de imprensa, que não se devem confundir com a desinformação ou a divulgação de falsas notícias ou de meias notícias.

Sem embargo dessa cobertura, devem ter observado o candidato e seus principais assessores que, da convenção para cá, não evoluiu como mobilização popular a presença do General Euler Bentes no cenário político nacional. Seus comícios não mobilizam grandes multidões nem se identifica a existência de uma opinião ativa capaz de exercer pressões sobre os membros do Colégio Eleitoral, fonte das esperanças do candidato de modificar a expectativa do resultado eleitoral. E' natural que isto aconteça. Não estamos a assistir a uma eleição popular e as eleições indiretas, por sua natureza, não sensibilizam a massa da população. As pesquisas são abundantes na indicação de que a maioria da nação brasileira se opõe ao regime atual, o qual gostaria de ver não apenas reformado, mas abolido e substituído por um regime democrático. Mas essa nação e essa opinião não são mobilizáveis pelo tipo de campanha proporcionado pelo pleito indireto e pelas restrições inerentes a um regime de índole policial e repressiva.

Quando em 1973 o MDB lançou as candidaturas dos Srs Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho, o fez declaradamente com o propósito de propaganda política, tanto que os denominou de anticandidatos e jamais procurou gerar a ilusão de uma vitória no Colégio Eleitoral que estava condenado ou fadado a votar no General Ernesto Geisel e no General Adalberto Pereira dos Santos para Presidente e Vice-Presidente da Republica. Apesar disso, o lançamento produziu efeitos, desmistificou o processo e alertou a Oposição para a possibilidade de abrir-se um certo tipo de luta. Não há dúvida de que a campanha dos anticandidatos de 1973 influiu vigorosamente na disposição do eleitorado, em 1974, de trocar o voto em branco pelo voto na Oposição. Percebeu-se que era possível manifestar-se concretamente contra o regime e contra o Governo.

A campanha do General Euler Bentes Monteiro foi iniciada sob a esperança de vitória no Colégio Eleitoral. Havia a expectativa de que a Frente de Redemocratização somaria dissidências e levaria de vencida as resistências do Colégio em adotar a candidatura alternativa, cuja posse, na hipótese de vitória, estaria previamente assegurada por tratar-se de um oficial superior das Forças Armadas. Essa ilusão vai desaparecendo e a realidade hoje está na verificação dos benefícios ou dos malefícios da candidatura do General Euler na eleição de 15 de novembro. Parece claro que ele ajudará amplos setores do MDB a se firmarem eleitoralmente, mas, por outro lado, ele deixou aberta a perspectiva pós-eleitoral de uma cisão no Partido, cuja fração conservadora ou moderada já tendia, antes mesmo de surgir a candidatura Euler, a aceitar a idéia de compor-se com frações da Arena para formação, a partir de janeiro, de um novo Partido político, obviamente de apoio ao Governo do General Figueiredo.

Dir-se-á que o General Euler Bentes contribuiu para ampliar o debate político, social e econômico. Sem duvida que o fez, inclusive porque, sendo um homem de pensamento nítido, propõe em torno de si definições e situa o problema da revisão do modelo implantado pelo regime militar. Essa contribuição é válida, mas o fato é que ela opera como as demais na área das elites, já alertadas para os temas em debate. A campanha do candidato da Oposição, não tendo mobilizado as multidões, não tendo gerado entusiasmos nem dedicações de amplas camadas populares, tornou-se uma proposição política semelhante à das anticandidaturas, suplantando o âmbito estritamente partidário, embora gerando problemas internos no Partido. O General tem um mês para modificar essa situação, partindo-se do pressuposto de que, aceitando as regras do jogo, mantém-se no estrito âmbito da legalidade existente, cuja legitimidade discute, mas cuja eficácia não contesta.

Carlos Castello Branco

 
Jornal do Brasil 14/09/1978