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Acerto de Magalhães com Figueiredo
Brasília — Pela segunda vez o Senador Magalhães Pinto encontrou-se ontem pela manhã, na residência brasiliense do Brigadeiro Délio Jardim de Matos, com o General João Baptista de Figueiredo. O encontro foi novamente assistido pelo ex-Deputado Jorge Cury, a quem coube introduzir o Senador na casa do Brigadeiro, incansável articulador de uma participação do Sr Magalhães Pinto na campanha eleitoral de Minas. O encontro de ontem foi conclusivo: o Senador não apoiará a candidatura do General, por entender que deve permanecer fiel à tese da solução civil, mas concordou em disputar uma cadeira de Deputado sob a legenda da Arena, mas com o declarado proprósito de lutar, após as eleições, pela arregimentação de novo Partido. O General incumbiu-se de acertar o assunto com o Partido.
O primeiro encontro do General candidato com o Senador ocorreu na tarde de sábado, 26 de agosto, na Rua Joaquim Nabuco, 81, Rio de Janeiro, residência carioca (ainda por alguns dias mais) do Brigadeiro Jardim de Matos, com a presença do mesmo ex-Deputado Cury, ainda cumprindo pena de suspensão de direitos políticos. O Brigadeiro, inicialmente sozinho e depois com a assistência de seu velho amigo paranaense e ex-Deputado, foi a tecedeira dessa aproximação da qual não resultou um pacto de adesão, mas uma decisão do Senador mineiro de colaborar, nesta fase, com a campanha eleitoral da Arena.
Curioso observar que a decisão negociada na cúpula não foi precedida de qualquer consulta do Sr Magalhães Pinto aos dirigentes da política oficial do seu Estado. Nem o.candidato a Vice-Presidente da República, Sr Aureliano Chaves, nem o Governador eleito e presidente nacional do Partido, Sr Francelino Pereira, nem o Governador Osanan Coelho, nem o presidente do diretório regional da Arena, nenhum deles foi parte das negociações que culminaram com a divulgação, ontem, da nota do Senador, previamente levada ao conhecimento do General candidato.
Como se sabe, e foi aqui anotado, os candidatos à deputação federal da Arena mineira, nas últimas semanas, passaram a transmitir à direção nacional do Partido suas apreensões com a tardia inclusão do Senador na lista de candidatos, já completa.Entendem os candidatos mineiros que o Sr Magalhães Pinto, decidindo-se a disputar praticamente no último dia do prazo de que dispunha para fazê-lo, deslocará de suas bases, nas quais se vem implantando há alguns meses, numerosos candidatos, cuja votação poderá ser assim alcançada pela indesejada rearticulação das bases eleitorais do Senador. Não se trata apenas de ameaça à eleição de alguns, mas do deslocamento de aspirações à liderança da chapa, a qual voltará, segundo os prognósticos, a ser do ex-Governador do Estado.
O Sr Magalhães Pinto não será assim bem recebido por seus companheiros de chapa, os quais, para dificultar sua decisão de candidatar-se, procuram suscitar junto à direção nacional a conveniência de condicionar a participação do Senador na campanha à prévia declaração de apoio ao candidato presidencial e de entrosamento com a futura governança do Estado. As pressões chegaram ao conhecimento dos interessados e até mesmo ao conhecimento público, mas sobre elas parece ter prevalecido o interesse do General João Baptista de Figueiredo de promover em Minas aumento substancial da votação da Arena, coisa que a presença na chapa do Sr Magalhães Pinto poderá garantir. O candidato a Presidente da República está empenhado em ajudar o Partido na eleição de 15 de novembro e espera contribuir para reduzir o favoritismo do MDB em diversos Estados. A presença na chapa mineira da Arena do Sr Magalhães Pinto, se afeta interesses de candidatos, asseguraria maior representação do Partido na bancada federal mineira.
Há ainda a assinalar nas negociações entre o General Figueiredo e o Sr Magalhães Pinto a insistência do Senador de colocar-se como alternativa civil para a sucessão presidencial e a sua declaração de lutar, após o pleito, pela arregimentação de novo Partido político. Isso não parece desagradar o sistema Figueiredo, pois a formação de um novo Partido pelo Senador poderá gerar uma terceira força na qual se incluiriam alguns representantes do MDB que, nos últimos meses, se aproximaram muito do Sr Magalhães Pinto. A decisão de formar um Partido não ortodoxamente governista poderia facilitar os planos futuros do General Figueiredo, pois com isso, se vier a perder alguns deputados da Arena, deslocará do MDB maior número de representantes. Quanto à definição futura do novo Partido, tudo dependerá da capacidade de formar alianças a ser demonstrada pelo futuro Chefe do Governo.
Outro ponto a considerar no entendimento final do General Figueiredo com o Senador Magalhães Pinto está no prejuízo, que isso representa, para as expectativas do General Euler Bentes Monteiro, o qual deverá perder, no âmbito da Arena mineira, alguns votos que potencialmente lhe seriam dados no Colégio Eleitoral. O Sr Magalhães Pinto não deverá votar em qualquer dos dois candidatos militares, mas seus amigos, mobilizados na campanha pela deputação, tenderão a votar no Colégio com a Arena, logo com seus candidatos a Presidente e Vice-Presidente da República, malgrado o baixo nível de relacionamento do Sr Aureliano Chaves com o Sr Magalhães Pinto.
Carlos Castello Branco |
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