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Salvem-se as aparências
Brasília — O General Euler Bentes Monteiro chegou a Brasília, depois de ter feito no Rio com seus assessores uma avaliação do quadro político no qual se encaixa sua candidatura, com a disposição de renunciará condição de candidato do MDB. Admitia, no entanto, que manifestações concretas de unidade do Partido oposicionista em torno do seu nome, produzidas em grau de confiabilidade tal que pudesse contar como certos os votos do MDB no Colégio Eleitoral, o induzissem a rever seu plano de campanha, de modo a dar-lhe maior agressividade, contribuindo para vincular a campanha presidencial à campanha parlamentar de novembro.Como não houve renúncia presume-se que tenha havido uma composição conveniente.
As discordâncias do candidato com seus correligionários não se limitaram à área do Partido nem tiveram por único motivo a debandada de 41 deputados da bancada federal do plenário da Câmara na hora da votação das reformas. Ele teve problemas in-ternos, na sua própria assessoria, e publica-mente o General Hugo Abreu demonstrou insatisfação com a ausência do candidato ao debate com estudantes na Universidade de Brasília. O General Abreu que, por alguns meses, foi o sustentáculo do Reitor, chegou a 1declarar que "se fosse eu, teria ido".
Na verdade, a direção do MDB nem qualquer fração partidária poderá dar ao candidato garantias efetivas de comparecimento e votação no Colégio Eleitoral. Os erros praticados no lançamento da candidatura do General Euler Bentes resultaram de posturas não suficientemente interpretadas ou esclarecidas no momento decisivo. Ao General faltou experiência, política e prévia articulação mediante a qual se assegurasse das condições reais da luta. Ao Partido faltou, à sua direção, controle da bancada e da Convenção e, ao seu grupo autêntico, que deu o impulso ao movimento em favor do General Euler, faltou uma conceituação adequada das posições do candidato, que não estão suficientemente infiltradas do conteúdo ideológico que inspira a esquerda do Partido oposicionista.
Ao lado disso, identifica-se na atitude dos que instigaram a candidatura Euler não diríamos uma certa dose de aventureirismo, mas uma certa vontade de depois de 15 anos de regime discricionário, enfrentar a situação com uma espécie de estratégia de desespero. Pretendia-se ter à frente da campanha um General, senão para um desafio militar, pelo menos como garantia de que se poderia fazer campanha com viabilidade de êxito pelo respeito que o candidato merece das Forças Armadas. Afinal, nesses 15 anos não apareceu uma cabeça militar exposta às agressões do sistema enquanto por todo o período permaneceram expostas ao arbítrio todas as cabeças civis da Oposição. E algumas delas rolaram.
Ora, hoje, o projeto pessoal do General Euler esboça-se com mais nitidez. Ele pretendeu, em primeiro lugar, contribuir para ampliação e aceleramento das reformas políticas prometidas pelo Presidente Geisel. Em segundo lugar, achou que, como candidato, oferecia abrigo à Oposição para desempenhar uma campanha pacífica pela democratização e até mesmo pela conquista de faixas de Poder. O General terá chegado a crer na hipótese da vitória da sua candidatura e por isso é que sua tática principal se circunscreveu a difundir o mais que pôde a crença de que, se eleito, tomará posse. Embora não o dissesse, estava implícito que ele não acreditaria que se desse posse a um civil, mas, tratando-se de um candidato militar em condições idênticas às do candidato oficial, estaria com sua posse tranqüilamente assegurada pelo sistema do qual emergiu há pouco mais de um ano.
A proposição do General Euler era e é uma proposição de paz e, ideologicamente, não correspondeu à dos grupos mais exaltados da ala autêntica do MDB, que esperavam uma campanha contra as multinacionais e em favor da ampliação da faixa de atuação da empresa estatal, temas que não são contemplados pelo candidato senão em escala de correções de alguns exageros ocorridos no passado. O resultado é que o General Euler Bentes em pouco tempo já não era o candidato ideal de nenhuma das correntes do MDB, uma das quais tornou ostensiva, por sua atitude recente, que se ausenta-ria do Colégio Eleitoral, se necessário, para negar o voto ao candidato. A situação tornou-se extremamente difícil.
A faixa de dissidência da Arena, por sua vez, foi-se diluindo em função de episódios diversos, dentre os quais a absorção pelo Partido do Senador Magalhães Pinto, a perda de confiança nas possibilidades de êxito do General Euler dada a atitude esquiva de parcela visível do MDB e a catequese sistematicamente realizada pelo Governo, em es'pedal pelo candidato João Baptista de Figueiredo, cujo comportamento político apresentou melhor rendimento do que o do seu competidor.
O General e o Partido cometeram o erro final, contra o qual prevenira os políticos o falecido Benedito Valadares, o de terem realizado reunião sem que o assunto estivesse previamente definido. Qualquer entendimento entre o General Euler Bentes, o MDB e a base militar do candidato parece precário e pouco realista. A condição moral a que o General candidato terá sido sensível seria a repercussão da sua renúncia na campanha de 15 de novembro. Mas essa, há setores do MDB que preferem travá-la sem o candidato do que com o candidato. Trata-se sem dúvida de um episódio da sucessão que, salvo fatos novos, continua a progredir apenas em função dos interesses criados.
Carlos Castello Branco |
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