Coluna do Castello    
 

Entre Geisel e Figueiredo

Brasília — Tem se tornado freqüentes as notícias de desencontros ou de desacordos entre o Presidente Ernesto Geisel e o candidato oficial à sua sucessão, General João Baptista de Figueiredo. Essas notícias, verdadeiras ou não, devem ser enfocadas, todavia no quadro de uma realidade dentro da qual ressalta, como ponto de partida, que o General Figueiredo, por opção ou por exclusão, foi o candidato adotado pelo Chefe do Governo, a quem ficou a dever a superação das dificuldades que, desde o início, assinalaram o caminho do sucessor articulado no Palácio do Planalto. O Presidente, sabendo que ele encontraria dificuldades, inspiradas em razões hierárquicas e outras, nos altos comandos militares, assumiu a responsabilidade de eliminar consultas às bases do sistema, autorizou a divulgação prévia da articulação, antecipou o convite oficial, autorizou inversões no calendário das Convenções e encampou ou produziu todos os tipos de providência para fazer do Chefe do SNI o seu sucessor na Presidência da República.

A caminhada do General Figueiredo não foi fácil e continuará a enfrentar dificuldades, mesmo depois de completada, uma vez que as projeções se fazem sobre o futuro quanto á persistência de reações hostis à sua escolha. Atrás dele ficaram o fantasma de um Ministro do Exército, que pretendeu aspirar ao lugar, a destruição política da candidatura civil, uma vaga no Gabinete Militar do Presidente, e ao lado dele persistem uma dissidência militar ativa, ainda que avaliada como de dimensão menor do que a alegada por seus mentores, e um candidato de Oposição, General de quatro estrelas até há pouco integrante do Alto Comando, e a decisão de alguns adversários de levar até o fim um ato de denúncias que tem sido contido até aqui nos bastidores.

Sem embargo e apesar das previsões de que os problemas irão se multiplicando à sua frente, consolidou-se politicamente sua posição de candidato, o MDB conseguiu demonstrar ao General Euler Bentes a inviabilidade eleitoral da sua candidatura e a campanha contra o General Figueiredo pulveriza-se sem que tenha, todavia cessado. Uma das formas que assumiu esse movimento que procura prevenir a nação contra o candidato oficial à sucessão presidencial está precisa-mente nessas notícias tendentes a revelar a confidências do Presidente Geisel de desapontamento ou frustração com o candidato, que estaria demonstrando despreparo na abordagem de grandes problemas nacionais.

Não se pode penetrar na intimidade presidencial e as inconfidências que nos transmitem devem ser encaradas com a inevitável reserva. Se o General Geisel tiver preocupações hoje com o General Figueiredo, isso não o levaria a abandonar o candidato nem a manifestar indiscretamente suas suspeitas quanto à possibilidade de o sucessor que escolheu ou aceitou vir a sair-se bem na abordagem dos problemas econômicos e sociais que irão amadurecendo nesse final de gestão e nessa confluência de fatores negativos, dentre os quais, do ponto-de-vista governamental, a afirmação de reivindicações e de críticas, feitas por líderes operários, por dirigentes empresariais e por candidatos da Arena em campanha, como os ex-Governadores Cid Sampaio e Magalhães Pinto.

Não há dúvida de que, fixando-se no General Figueiredo para a sucessão, o General Geisel tinha plena consciência de optar por alguém que ostenta temperamento e feitio totalmente diverso do dele. Há tanta diferença entre um e outro quanto havia diferenças entre Geisel e Médici. Apesar disso, achou-o, no momento, o mais preparado para a missão, o que não impede de encarar com apreensões promessas ou idéias manifestadas pelo candidato. A importância dessas restrições é relativa e não pode ser superestimada, a ponto de que sirvam de base a suposições de que o Chefe do Governo tenderia a alterar um quadro, para ele já definitivo. A sucessão do Presidente Geisel, na medida em que dele depender, está decidida e o sucessor será o General Figueiredo. Isso é o que deverá ocorrer a menos que petardos poderosos bombardeiem o Governo, o que a esta altura já não parece provável. Pouco importa que, de Teresópolis, lendo os jornais, o futuro ex-Presidente possa sentir desgosto pela decisão adotada. O fato é que não existe o menor sintoma de que esteja disposto a mudar o quadro ou de tentar assumir a tutela do futuro Presidente.

Certa vez, o falecido Marechal Costa e Silva, candidato à sucessão Presidencial, interrogado sobre o que havia entre ele e o Presidente Castello, respondeu: "Entre mim e o Castello não há nada". Na realidade, havia tudo. Mas o General Figueiredo poderia repetir agora a resposta a propósito de suas relações com o Presidente, com a convicção de que não estaria faltando à verdade.

O roteiro de Brizola
Se uma das quatro autoridades brasileiras que estiveram recentemente nos Estados Unidos dispunha-se, com conhecimento do Palácio do Planalto, a conversar com o ex-Governador Leonel Brizola, não o conseguiu.O Sr Brizola deslocou-se de Nova Iorque para Lisboa no dia 3 de setembro e lá permaneceu até a última sexta-feira, quando viajou para Estocolmo. Já voltou a Portugal, onde participará da reunião da Internacional Socialista e depois cumprirá programas na França e na Itália.

O ex-Governador não se hospeda em Nova Iorque em hotel próximo ao Central Park, mas no Hotel Roosevelt, na Rua 46, perto da Central Ferroviária.

Carlos Castello Branco

 
Jornal do Brasil 29/09/1978