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Na fase da agressão
Brasília - O ponto alto da radicalização da campanha do General Euler Bentes, a qual começou a mudar de tom no comício de Fortaleza, deverá ser a liberação, gradativa ou global, do chamado dossiê. Hugo Abreu. O ex-chefe da Casa Militar da Presidência teria acumulado informações, obtidas no exercício da função de secretário do Conselho de Segurança Nacional, relacionadas a atividades de pessoas vinculadas ao atual Governo, do qual se afastou ao ser oficializada a candidatura do General João Baptista de Figueiredo. Não parece haver qualquer tipo de acusação ao candidato, mas a alguns dos mais dedicados promotores da sua candidatura e seria com base nos elementos informativos de que dispõe, que o antigo chefe da Casa Militar teria feito objeções à escolha do Presidente. Na época, a ênfase foi dada à metodologia da escolha, pois o General Abreu, ainda no exercício do cargo de confiança do Governo, alegava que os chefes militares não assimilavam o nome do chefe do SNI, carente ainda de uma estrela. Por conta própria, realizou sondagens junto aos comandos e ofereceu ao Presidente no dia 2 de janeiro, em documento escrita, uma lista de seis nomes, dentre os quais dois civis, que poderiam encontrar receptividade no Alto Comando.
Quanto a outro tipo de informações, o General Abreu decidiu-se a formulá-las num encontro pessoal com o Presidente Geisel, o qual teve início na manhã seguinte no Palácio da Alvorada sem que pudesse prosseguir dada a reação exaltada do Chefe do Governo ao que tomou como insinuações e rumores de rua. O Presidente defendeu enfaticamente a honorabilidade dos seus auxiliares e repeliu as informações do secretário do Conselho de Segurança Nacional, o qual, de resto, não chegou a produzi-las de fato na presença do General Ernesto Geisel. Violenta discussão pôs fim à tentativa de revelação e o assunto, desde então, mantido em sigilo, tem sido objeto de especulações.
O General Abreu não parece ter desistido ainda da idéia de tornar públicas suas acusações. Ele o faria como recurso extremo para traumatizar a opinião pública na véspera da eleição do General Figueiredo e pensando ainda, por essa maneira, influir no espírito dos responsáveis pela condução do processo revolucionário. Tendo sido o principal estimulador da candidatura do General Euler Bentes, o General Abreu não se conformou com o meio tom em que vinha'se desenvolvendo a campanha e foi um dos que, em Brasília, realizaram pressões sobre o candidato para se tornar agressivo nos seus comícios e nas suas entrevistas.
A agressividade não parece, contudo ser uma componente da personalidade do General candidato do MDB, mas já em Fortaleza ele tentou usar uma linguagem mais vivaz, enquanto, no palanque em que estava, o candidato a Vice-Presidente, Senador Paulo Brossard, fazia as primeiras alusões abertas à corrupção governamental. Já no Senado, de resto, o Senador Carreira, do Amazonas, aparentemente inspirado no dossiê Hugo Abreu, lançou as primeiras farpas visando a ferir o chefe do Gabinete Civil e o secretário particular do Presidente, situando no plano nacional as acusações que estariam sendo formuladas na campanha eleitoral do Amazonas relacionadas com o chamado Projeto Jari. Os indícios são, portanto, de que a radicalização procurará atingir a imagem do Governo e das suas figuras mais notórias de modo a não só influir na opinião pública, com vistas à eleição de novembro, como a mobilizar reações militares ainda antes de 15 de outubro.
O General Abreu poderá ainda falar, se considerar oportuno, antes que, em novembro, seja alcançado por medidas que o obriguem a se transferir para a reserva. O General esperaria morrer en beauté, desfechando um último tiro de canhão antes de desvestir a farda, com suas significativas três estrelas. Ele parece esperar, contudo, que o General Euler Bentes esgote os seus próprios recursos de campanha antes de tentar produzir o seu impacto.
O MDB obviamente se envolverá na campanha e na radicalização e muitos esperam que desse festival de acusações, a Oposição sairá fortalecida para as eleições de 15 de novembro. O Partido oposicionista e o seu candidato já não alimentam esperanças de vitória em outubro, muito embora a constante afirmação do General Euler Bentes de que, se ganhar, leva, visa a quebrar a timidez de simpatizantes enrustidos. Tudo indica, no entanto, que essa esperança é vã. Não só o voto no Colégio Eleitoral será dado a descoberto como o General Figueiredo fixou a imagem de vencedor, contra a qual dificilmente se rebelarão os políticos. O bombardeio dos senadores e dos generais de oposição dificilmente atingirão o alvo principal embora possam produzir estragos nos seus arredores.
Enquanto isso o Presidente da República pede votos para a Arena, na certeza de que a Lei Falcão não foi feita para silenciá-lo em qualquer período do seu Governo. No Rio Grande do Sul ele pediu votos para o seu Partido, alegando que é muito difícil governar sem a maioria do Poder Legislativo.A seu lado, no entanto, o Governador Guazzelli ali estava como testemunho vivo de que não é impossível governar em paz contra a maioria da Assembléia, experiência a que vem se submetendo com êxito ao longo de quatro anos.
Carlos Castello Branco |
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